o fim de semana foi de esmiuçar o catalogo da exposicao do Antony Gormley, que vi recentemente no CCBB do Rio. Gormley e’ ingles e basicamente usa o proprio corpo como molde para suas esculturas, que segundo ele, se afastam da ideia de “estatua” porque sao criadas na intersecao desse corpo “esculturado” com o ambiente. para ele e’ o entorno que da o sentido do que se ve, reforca a presenca do ser humano replicado, inerte, uma massa de cobre e fibra de vidro, uma projecao dele mesmo no espaco circundante. ele explica numa entrevista a Marcello Dantas que usa o corpo como molde negativo e que o molde positivo e’ o que resta como escultura, oca, desmiolada, seca do proprio ser. ele propoem com o trabalho uma “experiencia fora do corpo” e para muitos sua obra trata essencialmente de “um reconhecimento do outro, vendo a si mesmo como o outro”.

a expo aqui no Brasil se chamou “Corpos Presentes” numa tradução nao tao acertada para “Still Being”, que traz mais a conotação de um ser parado, quieto, um ser como as aguas paradas e profundas de um lago. mas que tambem poderia ser traduzido como “ainda sendo”, o existir em continuidade, na vida e na obra de arte.

recentemente conversando com meu amigo Felipe Ribeiro, ele me disse algo novo pra mim: que meu trabalho e’ sempre escultural, e que esse aspecto escultural esta nao so no corpo, mas no espaco, no tempo aplicado e ate na disposicao do espectador nas performances. nunca tinha pensado nisso, apesar de reconhecer o interesse na escultura como prima-amiga da dança, como materia que tambem contem em si algumas das mesmas interrogações contidas no corpo que dança.

para um de seus trabalhos mostrado recentemente, Critical Mass, ele leu e se inspirou no “Crowds and Power” do Canetti, o mesmo livro que alimenta o processo de “de repente fica tudo preto de gente”. para ele o que interessa no autor e’ “a tentativa de compreender  a postura corporal como a linguagem antes da linguagem” que o levou a se perguntar “quais sao os sentimentos intrínsecos transmitidos por diferentes posturas corporais?” essa massa critica e’ inerte mas parece ser determinada pelo o que sentimos e como nos sentimos quando experimentamos esse amontoado de corpos em posturas distintas ou pendurados em cabos de aco que pendem do teto, como uma chuva de corpos, um desprendimento da corporalidade que nao esta em nos mesmo, mas em algum lugar entre nos e o mundo, ou seja, o outro.

os corpos de Gormley parecem dancar espalhados nos espacos da cidade, em parapeitos de predios, em montanhas de neve ou praias desertas, ou parados em um sinal de transito prestes a atravessar uma rua. estao dispostos como numa coreografia no vazio, no acidental da cidade, uma danca que se faz na percepcao de quem ve e nao no intento de quem faz. sao corpos constituidos de materiais moleculares, ajuntamento de matéria industrial que os define quanto forma e natureza. me faz pensar em Jose Gil quando propõem pensar o corpo como  “atravessado por um feixe de forcas”. corpo vivo e presente, corpo transmutavel pelo olhar do outro, pelo entorno do mundo. corpo que dança enquanto ninguem dança, corpo que dança as outras possibilidades de percepção de si mesmo.

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ask for help > asking help one to another > be able to ask help > in japan people dont know how to ask help > but they are very good in assisting you > in brazil is almost the contrary > looking for the nobody in each one as a common ground > presenting your nobody > unstable balance and no symmetry > crowd ask help to each self > someone waves to ask help > a man in the other side of the street waves back from an appartment building > waving for planes or someone who can help > asking help to the spectator > calcanhar, joelho, osso pubico, cotovelo, cabeca > a cabeca e’ a cereja do bolo > pretinha tange galinhas, tanger com o corpo, tanger para trazer pra perto > lonely in a crowd > alone among others > what happens there? > to be continued >

o estudio improvisado no terreno do lado da casa fica pronto. ou melhor seria dizer em condicoes de ser usado como estudio. o chao e’ de cimento, o teto uma lona preta esticada sobre cabos de aço, uma plataforma de madeira lateral serve como entrada do kabuki, a passarela enigmatica do tradicional teatro japones. a luz e’ quente, dividida em tres refletores de jardim, vindo de um so lado. as plantas estao ali de cada lado, o mato crescido, mistura de tudo com qualquer coisa basicamente mato crescendo sem lei. o piso foi coberto de caixas de papelao para dar uma suavizada e outra lona preta chapa o chao. o estudio, um lugar para trabalhar perto de si mesmo, em casa.

para inaugurar a coisa, escrutinando os desejos e dando de comer aas frustracoes proponho “nobody is dancing” pra arrancar no ensaio, pra chegar ainda mais perto desse abismo que se abre a cada vez que comeco um processo: o mesmo incomodo seco, entalado, a mesma duvida cruel, os mesmos de que maneira, os tais comos, e os persistentes por ques…

tamar quer saber o que exatamente quero dizer: se me refiro a ninguem dancando mesmo, ou aa ideia do ninguem de cada um dancando ali. o que sera sera e eles partem da configuracao meio circulo quebrado ou semi-circulo torto e esgaçado. a proxima duvida cai sobre improvisacao ou criacao e falamos de regras e maneiras de entender o que se faz como improvisacao – um fluxo de acoes-movimentos encadeados espontaneamente na sombra de uma narrativa que vai de alguma maneira se fazendo – ou criacao, que seria um construir um sentido no corpo que dispensa o fazer e privilegia o estar (ja) fazendo. optamos claramente por uma criacao enquanto principio, ate porque eu ando mesmo encasquetado com essa coisa da impro dentro de um processo. depois de repetir o que foi criado ali – uma danca que quase nao se dava no corpo,era mais um se embrenhar no espaco e nas linhas de tensao entre os corpos – hitomi falou de uma danca inside, dizendo ser esse nobody dancing uma coisa que so da pra acontecer la dentro. sacudimos as cabecas afirmativamente com um balaozinho em cima de nossas cabecas gritando: que porra e’ essa de danca inside e como nos conectamos com isso?

o assunto “tecnica” chega sorrateiro e penetra. hitomi nos conta que a tecnica dela nao permite dancar, ou melhor, que ela nao consegue ver como danca, que e’ quase a negacao do que seja dancar. no’ no juizo, ou em pingo d’agua. porque dancar virou cafona e demode’ e nao pega bem fazer dancinha ai pelas rodas cabeçudas e maravilhosas do mundo da danca.
pulamos dai para “everybody is dancing” e o que vem ta legendado assim: muita expressao, muita tentativa de ser e acontecer, todo mundo seguro e feliz do que sabe fazer, uma propulsão de coisas incriveis…mas que so aumentam o sentido de vazio que ela, quase que apenas ela, a dança, sabe proporcionar. acabamos e o estudio vira quase que magicamente o quintal, o terreno baldio onde estendíamos roupas e tantas vezes foi falado de se construir ali uma latada, um puxado, um anexo, qualquer coisa que justamente deixasse a dança dançar.

a semana foi de cheganças e inicios, tateios e tentativas de reconhecer ali o como proceder diante do comecar dessa nova coisa. de repente chegaram todos os cinco, vindos de lugares muito distantes ou nem tanto – em escalas geograficas – mas de lugares gritantemente distantes como realidade, modo de vida e trabalho. e sobretudo distantes naquilo que nao se sabe porque mas se pode chamar de singular em uma pessoa, aquilo que faz dela aquela pessoa única. eles sao cinco unicos e extremamente diferentes em cor, nacionalidade, modo de pensar, dancar, falar, cada um com uma especie de imaginario incorporado que nada tem a ver com o outro.

as conversas sao minimas, as palavras escolhidas com precisao para nao despistar o sentido que ainda nem se faz so pelo fato de nao querer ainda aparecer. o google translator e’ o deus da hitomi, diz daniel, e no dia seguinte constata que deus nao existe mesmo, porque o google emudece diante das proposicoes pragmaticas, abstratas, filosoficas, metafisicas e contraditorias lancadas por nos. o deus google nao faz uma peca, apesar do primo dele, o youtube, nos aliviar os silencios propondo imagens de bandos de animais, pas-de- deux de ballets ou sacos de plasticos dancando inutilmente aos ventos. abrimos um grupo do facebook para destilar e ajuntar esses videos que podem servir depois como vestigio para um processo que vai se desenrolando no escuro, nas trevas que ainda assim prometem a luz. pas de deuses, os deuses se retiram para o silencio das nao solucoes, das nao resolucoes que garantem o sossego. fica tudo preto de gente como sombras cortadas pela luz, escambo da propria existencia.

to be nobody. to become nobody. desaparecer parece ausencia, nao nos serve aqui. ser nobody, ninguem – essa palavra tao bonita em portugues – ja traz em si uma completude, uma gravidez de muitas coisas em uma so. o ser ninguem parece antever uma existencia desgarrada daquilo que legitima a vida sobre as luzes do poder. ser ninguem e’ talvez estar nessa zona de indiscernibilidade onde se pode transitar sem o medo do perigo de se auto-desintegrar…porque nada mais existe que possa vir a se desintegrar.

e ai que os planejamentos e ideias todas acabam virando uma fatia mordivel do real. o preto de gente ta ai, o povo chegando, as casas sendo organizadas, o panico sobre o calor dos dias, o espaco de ensaio e as possiveis estrategias de como se comunicar com esse grupo, digamos assim, pra la de heterogeneo. o puxadim aqui do lado da casa vai saindo do chao, da areia pro baldrame para o piso de cimento esquadrinhado. seria um anexo ou apendice se fossenarigo academico, mas pra mim e’ latada, um puxadinho que melhor sera chamar de puxadim mesmo. o povo vai chegando e “de repente fica tudo preto de gente” com o nome da coisa ja dizendo tudo. hitomi, andrez, tamar, elielson, rosangela e os olhos de um amanha que assusta pelo tamanho.