a linha do equador passa sobre o nordeste do brasil e atravessa o norte rasgando a amazonia. Uma linha que e’ geografica mas sobretudo abissal, separando nao so o norte do sul mas toda uma profusao de ideias de mundo que divergem, convergem, se complementam e se equivocam no ambiente social, politico e cultural em que vivemos.

o jardim equatorial da thelma bonavita parece estar se construindo ai tambem, em uma linha imaginaria, entre as operacoes do subjetivo e do simbolico que atravessam a arte mas tambem as nossas vidas, nossos afetos e nossos lacos de convivio e pertencimento. Essa linha se da no jardim como uma passarela, um cadwalk de desfile ao som de uma trilha sonora com japoneses cantando cancoes nordestinas traduzidas para o japones. Uma linha/trilha/passarela deslocada, que mais do que dividir, organiza e reconfigura, dando um outro ar da graca ao corpo que se traveste para performar. Objetos sao desfilados nesses corpos-display, corpo-cabide que propoem justamente essa linha entre a objetivacao e a subjetivacao dele mesmo e do objeto desfilado.

um saco de café, um cacho de banana, um pedestal de microfone, um kilo de glitter verde (o muiraquitan do macunaima em po), um teclado, um chocalho, um relogio, um globo espelhado, um abacaxi de plastico … misturados ao corpo que refaz o proprio design para amparar o objeto. Bracos, cabecas, torsos, pernas, peitos, paus e bundas dispostos em relacao a esses objetos no desfilar retumbante e ao mesmo tempo displicente. a resignificacao do corpo a partir das proteses do consumo, dos acessorios intercambiaveis da identidade, das alegorias cotidianizadas pelo desejo, numa parada metamorfoseada pelo som de tambores vindos das ruas do centro de sao Paulo.

o jardim da thelma, caio, paula, dani, mavi, andrez, alex, eidglas, ana, beto, glamour… pode ser tambem o meu, o do victor e da margriet, o jardim de qualquer um. Uma passarela extensa e instavel que parece sair de dentro de uma mata equatorial umida e quente – que nunca seca -, por onde desfilam canibais famintos e um bestiario de hibridez de toda especie. uma mata frondosa e selvagem de interior escuro, propicia ao surgimento de outras diversidades, na condicao de vida em estado de potencializacao.

Um jardim como enxerto de plantas carnivoras esfomeadas e famigeradas em aquario de vidro e concreto. flores carnivoras de botes certeiros e perfumes alucinogenos, que se comem em um processo antropofagico de retroalimentacao compartilhada.

Advertisements