comecei hoje o de repente fica tudo preto de gente. em residencia artistica no LOTE, projeto do cristian duarte e colaboradores, to tendo a oportunidade de trabalhar por duas semanas com uma massa de 21 artistas bastante interessantes. trouxe a discussao da massa do canetti e a coisa parece ja ter encontrado pontos de conexão com o que fazemos, quem somos, e em que mundo vivemos. uma grande roda com cadeiras pretas e brancas foi feita no palco do teatro fabrica em sao paulo, debaixo de uma luz de servico pouco atuante no espaco preto. e desde quando conseguimos fugir facil da situacao massa em nossas vidas? a massa estava ali, presente e atenta, opinante e engracada, duvidosa e silenciosa. em um momento juntamos todas as cadeiras em um monte com todos sentados amontoados e deixamos cair ai a ideia (um tanto falsa) de democracia do circulo, continuando a conversa. empilhamos as cadeiras contra os muros e nos juntamos em um corpo-a-corpo no centro do espaco, um ajuntamento meio sem jeito, meio sem onde agarrar para estar ali, mas apostando na densidade do bolo, o volume avantajado da nuvem. a friccao de um corpo contra o outro e’ sobretudo a ficcao de se ser unico. os cheiros e os sons que saem naturalmente dali nos diz de carne, visceras, tabus, desejos, medos, entrega e confronto, em um estado entre o panico e a satisfacao. a gravidade que age implacavel sobre a massa a impulsiona ou a deixa tombar. o eixo do corpo se desloca para um so eixo comum – um corpo-gente – movel, instavel, fragil mas resistente. o grupo se divide em dois e os espectadores – essa massa condensada de expectativas volateis – tomam o seu lugar. a palavra do dia foi “pro-passivo” na contramao da situacao de pro-ativo requerida hoje pelo mercado profissional em expansao. me faz pansar muito como qualidade para o performer e tambem para o espectador.
imagem > andreas gursky
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