No inicio do processo do 1000 casas propus a metafora de “boiar” para orientar aquele momento. A ideia era boiar como se deixar estar, flutuar suspenso em um espaco de deriva, equilibrar o corpo em uma superficie plana movedica, o corpo tornado leve para dai afundar devagar e horizontalmente. Proponho agora uma simples troca de vogal no verbo, mas com isso uma inversao total no sentido da metafora. “Baiar” no lugar de “boiar”.

Baiar vem de bailar, dancar, saracutiar. Foi dai que veio o “baiao” de luiz Gonzaga e os “bailes” da corte e tambem os conhecidos como “tertulias”. O termo foi popularmente adotado pela umbanda (candomble ou quibanda) para designar o movimento ritualistico dos pais e filhos de santo, e ainda hoje se relaciona fortemente a essa pratica.

A “baiacao” acontece nas praticas rituais mais ou menos assim: um grande circulo e’ formado pelos dancarinos. Normalmente tem musica de tambor, canticos e defumador. Os corpos giram em volta do eixo central do circulo e ao mesmo tempo em volta do proprio eixo. A medida que evoluem com o movimento, os corpos vao expandindo o volume do circulo. Os corpos sao atuados, estao atuados, que e’ como se diz desses corpos em estado de disponibilidade, de abertura a algo que vem de fora (ou de dentro?) e acaba por atravessar e determinar essa condicao especifica.

O baiar e’ o encaminhamento para a incorporacao, e gosto demais dessa ideia se pensada pela raiz literal da palavra. Incorporar e’ tornar corpo, trazer para o corpo o que pode se apoderar dele, sedimentar nele uma acao especifica, torna-lo corpo midiatico, fluxo de feixes de forcas, passagem de correntezas, lugar de alteracao configurado.

Penso ai no momento em que estamos nesse processo de visitar ou assaltar e ainda documentalizar 1000 casas. Baiar no contratempo, para incorporar o desejo e alavancar as vontades. Deixar o corpo suscetivel, aberto e poroso para “receber os santos e o que mais vier”.

Na verdade o que mais me interessa no baiar e’ a condicao de “sair de si mesmo” e “desalojar os egos”. Passar a ser o outro, emprestar o corpo para uma incorporacao que nao e’ da minha certeza, e que esta fora de um controle comum de mim mesmo. E ainda baiar como possibilidade de levantar poeira, sacudir o momento e manter um movimento repetitivo e constante, que tem algo de luta entre mundos, entre o real e o transcendental, e que ao mesmo tempo se da como manifestacao e celebracao desse nosso instante no mundo.

Para os que se perguntam sobre que tipo de pratica adotar agora, proponho o baiar: Sem tambor e sem conga’, sem renda branca ou palha da costa. Apenas com o corpo em circularidade no espaco do galpao do dirceu, em movimento constante e insistente, sem hora pra comecar ou acabar. baiar para entrar em transe e escapar dessa realidade funcional, didatica, institucional e alienada, que parece as vezes assolar a posicao do artista no mundo de hoje.

as imagens sao de Pierre Verger, fotografo frances que viveu no Brasil e se dedicou a fotografar o sincretismo no Brasil e na Africa.